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Vou
contar a minha história Pra meu povo tão amigo Vou mostrar
para vocês O que aconteceu comigo Atenção eu peço
agora Com amor agora eu digo.
Nasci no meio do mato Nunca li nem escrevi Na revista, só figuras
Nunca uma linha eu li Só Deus sabe o que passei E o tanto
que sofri.
Ao abrir qualquer jornal Era grande a agonia Só abria na minha
frente Como quem lia e entendia Minha vida eram imagens Escrever,
não escrevia.
E assim eu fui levando Cada hora e segundo Mas de tudo via um pouco
Só da vida, soube ao fundo Minha grande alegria Pus três
filhos nesse mundo.
E assim eu trabalhei E o tempo foi passando Para os outros, tudo certo
Para mim, algo faltando Então foi comigo mesmo Que eu fui
já conversando.
Perguntei para mim mesmo Mas que mal que me aflige? Sinto que uma coisa
nova Minha vida já exige Mas se tem algo de errado Vê
se acerta e corrige.
Foi então que decidi Aprender o alfabeto Desde o A até
o Z Eu queria ele completo Coloquei para mim mesmo Vou fazer esse
projeto.
Eu não vou contar das aulas Que dois anos eu passei Nem tão
pouco os amigos Que na escola eu ganhei Vou contar que na escola
Aprendi o que hoje sei.
Porque não quero contar Quais os dias dessa agenda Nem tão
pouco que serviam Uma genial merenda Que aprendi bastante coisas
Desde história até lenda.
Mas não conto pra vocês O qu'é começar a ler
Ir somando cada letra Começando a entender Como se um novo mundo
Eu ali visse nascer.
Também não sei se eu conto Que a vida teve vida Que a
foto da revista Hoje é mais colorida Pois também eu leio
o texto Nada mais me intimida.
Eu ainda tenho dúvida Se eu devo lhes contar Aprendi a matemática
dividir, multiplicar Aprendi que essa vida É mais que observar.
Eu decido já contar Nada pra ninguém eu devo Escrever meu
próprio nome Juro que eu já escrevo Eu escalo a leitura
Eu enfrento esse relevo.
Eu já vejo que a revista Não é feita só de foto
Vejo muito mais que o rosto De quem ganha o meu voto Entender essas
palavras É mais que ganhar na loto.
A leitura é diversão Uma nota de jornal A receita de um
bolo - Quanto é o percentual? São palavras na minha mente
De um modo natural.
Um bilhete de amor Eu o faço com coragem Hoje com a minha escrita
Eu embarco na viagem Eu carrego o mundo inteiro Dentro da minha
bagagem.
Hoje não estou mais rico Hoje não estou mais pobre Ler
não me deu mais dinheiro Mas eu digo: -Sou mais nobre! Ler me
deu um novo mundo Que mais vale do que cobre.
Já não tenho agonia Acabou o meu tormento Sou mais que
alfabetizado Tenho em mim o letramento E eu grito para o mundo:
- Salve, salve meu talento!
FIM
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