Mudança!

 

 

   

 

Vou contar a minha história
Pra meu povo tão amigo
Vou mostrar para vocês
O que aconteceu comigo
Atenção eu peço agora
Com amor agora eu digo.


Nasci no meio do mato
Nunca li nem escrevi
Na revista, só figuras
Nunca uma linha eu li
Só Deus sabe o que passei
E o tanto que sofri.


Ao abrir qualquer jornal
Era grande a agonia
Só abria na minha frente
Como quem lia e entendia
Minha vida eram imagens
Escrever, não escrevia.


E assim eu fui levando
Cada hora e segundo
Mas de tudo via um pouco
Só da vida, soube ao fundo
Minha grande alegria
Pus três filhos nesse mundo.


E assim eu trabalhei
E o tempo foi passando
Para os outros, tudo certo
Para mim, algo faltando
Então foi comigo mesmo
Que eu fui já conversando.


Perguntei para mim mesmo
Mas que mal que me aflige?
Sinto que uma coisa nova
Minha vida já exige
Mas se tem algo de errado
Vê se acerta e corrige.


Foi então que decidi
Aprender o alfabeto
Desde o A até o Z
Eu queria ele completo
Coloquei para mim mesmo
Vou fazer esse projeto.


Eu não vou contar das aulas
Que dois anos eu passei
Nem tão pouco os amigos
Que na escola eu ganhei
Vou contar que na escola
Aprendi o que hoje sei.


Porque não quero contar
Quais os dias dessa agenda
Nem tão pouco que serviam
Uma genial merenda
Que aprendi bastante coisas
Desde história até lenda.


Mas não conto pra vocês
O qu'é começar a ler
Ir somando cada letra
Começando a entender
Como se um novo mundo
Eu ali visse nascer.


Também não sei se eu conto
Que a vida teve vida
Que a foto da revista
Hoje é mais colorida
Pois também eu leio o texto
Nada mais me intimida.


Eu ainda tenho dúvida
Se eu devo lhes contar
Aprendi a matemática
dividir, multiplicar
Aprendi que essa vida
É mais que observar.


Eu decido já contar
Nada pra ninguém eu devo
Escrever meu próprio nome
Juro que eu já escrevo
Eu escalo a leitura
Eu enfrento esse relevo.


Eu já vejo que a revista
Não é feita só de foto
Vejo muito mais que o rosto
De quem ganha o meu voto
Entender essas palavras
É mais que ganhar na loto.


A leitura é diversão
Uma nota de jornal
A receita de um bolo
- Quanto é o percentual?
São palavras na minha mente
De um modo natural.


Um bilhete de amor
Eu o faço com coragem
Hoje com a minha escrita
Eu embarco na viagem
Eu carrego o mundo inteiro
Dentro da minha bagagem.


Hoje não estou mais rico
Hoje não estou mais pobre
Ler não me deu mais dinheiro
Mas eu digo: -Sou mais nobre!
Ler me deu um novo mundo
Que mais vale do que cobre.


Já não tenho agonia
Acabou o meu tormento
Sou mais que alfabetizado
Tenho em mim o letramento
E eu grito para o mundo:
- Salve, salve meu talento!


FIM