|
|
Cultura Popular Brasileira
Ed. Moderna - Em Agosto comemora-se o folclore, qual a importância
da cultura popular na nossa sociedade?
R: César Obeid - A cultura popular está presente no dia-a-dia
de todos nós. Ela é vivenciada espontaneamente em diversas
camadas sociais e nos mostra o perfeito retrato da nossa comunidade, pela
ótica da maioria. O que pode ser mais importante do que a voz do
povo?
Ed. Moderna - Como a cultura popular pode interferir na formação
do cidadão?
R: César Obeid - Tendo como base a estruturação familiar
e social, a cultura popular promove um encontro comunitário e isso
é muito rico para a formação do cidadão neste
contexto totalmente globalizado e massificado em que vivemos. Eu gosto
de dizer que viver uma manifestação de cultura popular é
sentir o cheiro da casa da avó; não tem nada mais gostoso.
Ed. Moderna - A cultura popular "está se perdendo" ou
é a falta de identidade que está nos aproximando cada vez
mais de outras culturas e nos distanciando das raízes?
R: César Obeid - Nunca, claro que não! As manifestações
de culturas populares (alguns pesquisadores preferem usar o termo no plural)
cada vez mais estão sendo foco de interesse, estudo e prática.
Muitas vezes, o mesmo jovem que passa horas no video game, participa de
uma congada ou catira. É por isso que aconselho não usar
o termo "resgate", senão vamos pensar que todas as culturas
tradicionais morreram.
Ed. Moderna - Sabemos que você escreveu o livro Minhas Rimas de
Cordel. Gostaria que explicasse como é o processo de produção
de um folheto de cordel?
R: César Obeid - No meu caso, o processo de produção
de um folheto é muito diferente de um livro. Os folhetos de cordel
que eu faço são para ocasiões específicas
(empresas, treinamento, eventos etc.) Nesse caso, eu uso versos descritivos
obedecendo ao tema de interesse. Já no caso dos livros (Minhas
Rimas de Cordel e O Cachorro do Menino) eu utilizo histórias com
enredos e personagens. Eu gosto dos dois estilos. Também penso
que um livro tem uma vida útil muito maior do que um folheto. Atualmente
estou produzindo diversos folhetos de cordel com temas que acho de extrema
importância para a sociedade como por exemplo, doação
de sangue e alimentação vegetariana)
Ed. Moderna - De que forma é feita a composição poética?
R: César Obeid - A literatura de cordel utiliza muito a sextilha,
que são estrofes de seis versos, onde apenas os versos pares rimam,
os ímpares não. Acho que é a modalidade que eu mais
utilizo também. Também escrevo muito em sete versos (como
uma sextilha, mas o quinto verso, rima com o sexto também.)
Ed. Moderna - Quais são os temas mais freqüentes na literatura
de cordel e as ilustrações em xilogravuras são importantes
para o contexto dos versos?
R: César Obeid - Ótima pergunta! Fico tão triste
quando vejo nos sites e livros por aí uma classificação
dos temas do cordel que não corresponde mais a realidade atual
da manifestação. Falar que o cordelista ainda hoje só
escreve sobre as façanhas de Padre Cícero, Getúlio
Vargas e Lampião é realmente enterrar o cordel! O que quero
dizer que são assuntos ainda abordados, mas não limitados
a eles. Cada poeta escreve o que ele quiser! Se eu te perguntasse "Quais
os temas mais freqüentes no teatro ou no conto?" Alguém
saberia dizer? Claro que não. E no cordel é assim. Pode
ser a vida do homem sertanejo, algum fato ocorrido, alguma história
inventada, uma poesia, etc. As xilogravuras ilustram as capas dos folhetos
e também de alguns livros. É uma técnica tradicional
que hoje é preservada pelos poetas, mas é bom lembrar que
um folheto pode estar sem a xilogravura, mas sem estruturação
correta de versos e rimas, nem será considerado Literatura de Cordel.
Ed. Moderna - Qual a importância da figura do vendedor de folhetos
de cordel, no passado?
R: César Obeid - Como isto está nos dias de hoje? Muito
boa pergunta, pois hoje em dia não existe mais o "vendedor
de folhetos". O Cordel é vendido em feiras de artesanato,
aeroportos, lugares turísticos, etc. Aquele vendedor de cordel
de feiras que parava a história para o público comprar,
não existe mais. Mas deveria ser algo muito interessante de se
presenciar, uma literatura vendida em feiras livres! Fantástico!
Hoje esta técnica é utilizada nas escolas para o estudante
"vender" a sua história ele tem que utilizar o corpo,
a voz e as emoções para convencer seu "comprador".
Ed. Moderna - Nos desafios repentistas a viola é um instrumento
muito importante, explique por que?
R: César Obeid - Na verdade, mais importante do que a viola, são
os versos, as rimas e as estrofes. Muitos repentistas não tocam
muito bem viola, dão somente o acorde tradicional entre as estrofes,
mas a preocupação com as rimas, com os temas e conteúdos,
é constante. A viola dá o acompanhamento para os versos
improvisados. Mesmo assim muitos repentistas, sem a viola, não
conseguem fazer nenhum verso, pode?
Ed. Moderna - Para encerrar, qual a sua opinião sobre - O cordel
no mundo moderno e sua sobrevivência no futuro.
R: César Obeid - A literatura de cordel já está no
mundo moderno, faz parte, é aceita, estuda, produzida e consumida,
não há dúvidas. Não somente o cordel, mas
quase toda manifestação de cultura popular utiliza-se dos
meios de comunicação e segue em frente. O rádio,
o jornal e a internet são aliados do cordel! Eu não conheço
nenhum jovem cordelista ou repentista que não se preocupe em estudar,
em concluir a sua faculdade, pesquisar diversos temas, etc. Se o artista
popular é um representante da sociedade em que vive, ele tem que
seguir com as mudanças. É uma pena que ainda muitas as pessoas,
por falta de informação, considerem o cordelista ou o repentista
como um cego analfabeto, pedindo esmola no meio de uma feira.
Ed. Moderna - Agora precisamos da sua inspiração: gostariámos
de um verso de cordel em comemoração ao mês da Cultura
Popular Brasileira.
R: César Obeid - A Cultura do povo está presente Nas escola,
no sítio e na cidade O cordel ou o verso de repente Não
está fora da sociedade Não tem mais cordelista iletrado
Repentista que canta embriagado É melhor assumir que está
mudado E passar para os outros a verdade. Esta é uma modalidade
criada pela dupla "Os Nonatos", poetas consagrados que residem
na Paraíba. É uma estrofe de oito versos decassílabos...
Quero dizer que, em agosto, vou lançar um livro muito especial
"O Cachorro do Menino" que trata sobre a inclusão através
de uma história inédita de um menino e seu cão deficiente.
Um abraço cheio de paz, rimas e alegrias, César Obeid
|